Com Japinha, uma nova chance para o Hateen

Xim não é mais o baterista do Hateen. A banda anunciou nesta quarta (19) que o músico e tatuador está a caminho de Miami e ficará lá por tempo indeterminado. Em seu lugar, o músico que ocupava o posto antes dele está de volta. Ricardo “Japinha” retoma as baquetas da banda que fundou em 1994.

Com tantas mudanças na formação, a volta de um ex-integrante fortalece a longa história do Hateen
Com tantas mudanças na formação, a volta de Japinha fortalece a longa história do Hateen

Geralmente, a perda de um integrante é uma ferida para uma banda. Nesta caso, imagino que a ferida exista, porém a mudança tem consigo um ar nostálgico, que deve ter efeito contrário do comum. Fugindo a regra, Ricardo Japinha é um baterista com mais fama e carisma do que os vocalistas das bandas em que tocou. Assim é no CPM 22 e assim foi no período em que o Hateen foi uma “banda grande” [adaptando o termo ao lado midiático, já que há muito eles provaram ser uma puta duma banda]. Dizem por aí até que a banda “não deu certo” no mainstream porque o Japinha saiu da banda.

Sonrisal fala sobre seu estúdio no interior de SP e o novo álbum do Hateen

Na imagem, o Hateen ganha. Tecnicamente, perde. Nunca ouvi uma alma viva dizer que Xim não era um ótimo baterista – e seria mais interessante de ouvir agora, já que a banda promete que Obrigado Tempestade será seu disco mais pesado [o álbum foi gravado por ele]. Já Japinha, como ele próprio me disse em uma entrevista no começo deste ano, precisa “estudar mais” [sem soar pejorativo, por favor]. A comparação não se faz pelo demérito, mas pela grande competencia de quem deixou o posto.


Badauí, do CPM 22 canta desde 2001 que “o mundo dá voltas”. E uma dessas voltas culminou neste encaixe que pode marcar o retorno do Hateen [que nunca acabou de fato, mas há algum tempo anda bem esquecido]. Em 2006, Japinha deixou o Hateen porque não conseguia conciliar a rotina de shows com o CPM 22. Mas há alguns anos sua banda principal não faz o mesmo sucesso de antes, o que abre espaço para duas carreiras paralelas. E quando ele deixou o Hateen, a própria banda afundou e ficou sem rumo, amarrada com um contrato até o final de 2009 com a Arsenal Music, que não resultou em nada além do relativo sucesso de Procedimentos de Emergência, de 2006.

A banda não deixaria de existir por causa da não presença de Japinha, porém o retorno dele traz uma esperança nova. Há muito se foi o tempo em que estar em uma gravadora significava, em algum nível, “trair o movimento” [alguém se lembra disso, véi?] e acredito que o novo-velho baterista tenha respeito do público underground, além de recuperar uma pequena parcela dos “fãs” do Hateen radiofônico.

Se tudo isso vai mesmo trazer de volta os holofotes para o Hateen, ninguém garante. Mas o principal é saber se a banda, já calejada com o sucesso, tanto do baterista, quanto do próprio Hateen e do vocalista Koala como compositor, vai saber escolher o caminho entre o efêmero e o duradouro [que no caso deles, quase nunca andou de mãos dadas].

Zebra Zebra – Agora é Que São Elas

E quando o editor de um blog, que tem como essencia a música hardcore, conclui que uma banda fica cada vez melhor a medida que se distancia o gênero? Pois bem, os fãs do Diário de Palco que me perdoem, mas é exatamente isso o que acontece com o Zebra Zebra.

O recém-lançado Agora é Que São Elas é o disco mais gostoso deste quarteto de São Vicente (SP). Se trata de um EP com somente seis músicas, mas que mostra uma evolução perante Cabeças Novas Também Mofam, porém ainda dentro da mesma linha musical, reforçando a idendidade ímpar do grupo.

O álbum abre com Bonita, uma bem sacada ironia sobre uma garota que só “vale a pena” pela estetica; Em seguida, Dois Copos D’água, que já ganhou um lindo clipe e tem força para alavancar a quantidade de fãs. Romântica, inteligente, triste e suave de se ouvir. O único incomodo é que as duas não deveriam ter sido colocadas em sequencia no disco, já que diferença entre os temas é grande e o clima de uma diverge da outra;

Há espaço também para quem discorda do primeiro parágrafo desta análise, com E que as Pernas Tremam e Não Sei, as mais agitadas do disco, que tem a produção de Fabricio de Souza, baixista do Garage Fuzz. Interessante ressaltar que o tema do título está presente em todas as músicas, sem cair nos clichês, tanto na composições, quanto na letras. Com um som pouco covencional, em 2011, o Zebra Zebra tem tudo para ser a surpresa da vez.

Garage Fuzz, 20 anos: donos de selos contam suas histórias com o The Morning Walk

O Garage Fuzz completa 20 anos com uma das mais autenticas e vitoriosas carreiras do hardcore nacional. A banda canta em inglês, rompeu com uma grande gravadora nos anos 90 [a Roadrunner] e é conhecida pela perfeição sonora de suas apresentações ao vivo, entre muitos outros motivos, que ganharão, em breve, espaço em uma entrevista como a de Rodrigo Lima, do Dead Fish.

Como uma singela homenagem à banda, pedimos para dois dos envolvidos em lançamentos do Garage para escreverem pequenas histórias sobre suas vidas ao lado deles: Felipe Gasnier, da Ideal Records e Tor Tauil, dono da 13 recs.

Felipe Gasnier, da Ideal Records. Lançou os álbuns Definetively Alive e a segunda edição do Relax In Your Favourite Chair
Felipe Gasnier, da Ideal Records. Lançou os álbuns Definetively Alive e a segunda edição do Relax In Your Favourite Chair

“Sempre os considerei a maior banda do hardcore nacional. Mas foi em 2003 ou 2004, quando inventamos essa loucura de criar uma gravadora, acreditem a primeira banda que liguei para propor um lançamento foram eles. Parece que foi ontem, lembro muito bem: rabisquei um projeto, coloquei em uma pasta, liguei para o Farofa [vocalista] e marcamos de nós trombar no metrô Vila Mariana [São Paulo]. Cheguei lá, esperei mais de hora e o Farofa não apareceu. Fiquei meio chateado e meses depois soube que estavam em estúdio via 13 recs. Hoje dou risada, eu muito novo com um selo sem nenhum lançamento, querendo lançar o The Morning Walk. Que doidera! Óbvio que os caras fizeram o certo na época: sairam pelo selo do meu amigo Tor e arrebentaram. Se não me engano, esse disco já vendeu mais de 4 mil cópias, o que para uma banda independente é um ótimo número.

Alguns anos se passaram, contratamos algumas outras bandas e após cinco lançamentos, tentei novamente. Foi quando rolou o re-lançamento do Relax In Your Favorive Chair, depois de 10 anos do lançamento via Roadrunner. Mais alguns anos depois o Fabricio me procurou para lançarmos o Definetively Alive [DVD ao vivo]. Foi um trabalho bem puxado, desgastante, mas acredito que todo mundo gostou do resultado”
Felipe Gasnier, Ideal Records

Tor Tauil, da 13 recs. Conheceu o Garage Fuzz nos anos 90 e lançou The Morning Walk em 2005
Tor Tauil, da 13 recs. Conheceu o Garage Fuzz nos anos 90 e lançou The Morning Walk em 2005

“Conheci o Garage Fuzz no começo dos anos 90. A primeira impressão que tive é que era uma banda extremamente profissional e estavam musicalmente um passo a frente em relação as bandas daquela época. Anos mais tarde, já no Zumbis do Espaço, passamos a nos encontrar com mais freqüência e tivemos a oportunidade de trabalhar juntos no The Morning Walk, o qual eu lancei pela minha gravadora a 13 recs, em 2005. O que posso dizer sobre eles é que as minhas primeiras impressões do inicio dos 90 estavam certas: além de excelentes músicos, se mostraram pessoas de caráter e personalidade. Me orgulho do trabalho que fizemos juntos. Sem duvida, uma das bandas mais honestas e profissionais que trabalhei no selo. Isso explica porque eles ainda estão por ai após todos esses anos”
Tor Tauil, 13 recs

Sergie fala sobre relação com Green Day e retorno do Samiam ao Brasil em 2012

Quando uma banda tem muito respeito e tempo de estrada, ela não precisa mais provar nada. O Samiam faz parte dessa lista. Eles não moram na mesma região dos EUA, nem tocam muito, nem sabem se um álbum será gravado no futuro.

Mas para a nossa sorte, eles decidiram lançar um novo. No começo deste mês saiu Trips, o oitavo da carreira deles, que mostrou o quanto a banda ainda está em boa forma. A decisão de prepará-lo nasceu em 2010. “Fizemos uma turnê pela costa leste dos EUA e Europa e estivemos juntos pela primeira vez para falar de nossas músicas. Aproveitamos para ensaiar algumas músicas nas passagens de som”, explica o guitarrista Sergie Loobkoff.

Ele próprio havia escrito quinze músicas, o guitarrista Sean preparou outras dez e o baixista Billy uma. “Neste ano, nos encontramos duas vezes em Nova York e uma em Los Angeles. Ensaimos por cerca de dois meses e fechamos as doze músicas do álbum”, explica, sobre a seleção das canções de Trips, lançado cinco anos após o não muito amado Whatever’s Got You Down [2006].

Happy For You, Magellan and El Dorado são as músicas preferidas de Sergie -o mais alto, ao fundo, do novo álbum
Happy For You, Magellan e El Dorado são as músicas preferidas de Sergie - o mais alto, ao fundo - no novo álbum

Brasil
O Samiam esteve por aqui em 2002 e em 2009. Desta vez, o retorno não deve demorar, segundo a estimativa de Sergie. “Esperamos voltar em 2012, mas isso depende do nosso produtor, Cesar Carpanez nos dizer quando e como”, diz, colocando a decisão nas mãos do selo Highlight Sounds.

Embora tenha ficado doente em boa parte da primeira turnê, Sergie só tem boas lembranças e brinca que deseja conhecer um animal que vive na América do Sul. “Todos nós amamos o Brasil. A comida, as pessoas, a cena é incrível. Tivemos ótimos shows para plateias apaixonadas. Eu quero, enfim, conhecer uma Capivara!”, brinca e anima os fãs.

Eu e Sergie, no show do Samiam em São José dos Campos, em dezembro de 2009
Eu e Sergie, no show do Samiam em São José dos Campos, em dezembro de 2009

Green Day
Tré Cool, baterista da famosa banda americana, já tocou com o Samiam, embora tenha sido apenas por um dia. “O Green Day é uma banda amiga desde o início, começamos quase na mesma época. Mas as coisas foram diferentes para nós”, conta o Sergie, com uma risada ao final da frase.

“Mas mesmo depois de eles ficarem grandes, foram bem legais conosco, nos levaram em turnês e deixaram gravar em seu estúdio”, retifica o guitarrista. Em 1999, a banda estava sem baterista e Tré Cool o substituiu. “Foi apenas uma tarde, mas foi muito bom”, relembra.

The Ataris, Avenged Sevenfold, NOFX e outras capas de álbuns
Além de guitarrista, Sergie ganha a vida como designer há quinze anos. Entre seus trabalhos, estão dezenas de capas de álbuns para bandas do cenário punk de selos como Fat Wreck, Epitaph e outros.

Entre as mais famosas estão So Long, Astoria do The Ataris e Waking The Fallen, do Avenged Sevenfold. Ambos foram lançados em 2003 e se tornaram discos de ouro nos EUA, batendo 500 mil cópias vendidas.

The Ataris, Avenged Sevenfold, Lagwagon, NOFX. No Slapped Together você pode ver todo o portfólio musical de Sergie www.slappedtogether.com
The Ataris, Avenged Sevenfold, Lagwagon, NOFX. No Slapped Together você pode ver todo o portfólio musical de Sergie

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“Eu poderia ser um desses advogados bigodudos. Estaria gordo e rico!”, ironiza Rodrigo Lima

Esta é a terceira e última parte do papo que tive com Rodrigo Lima em um boteco no bairro da Pompeia, em São Paulo. Pouca gente sabe, mas ele teve em planos se tornar um advogado, desistindo da profissão prestes a fazer o exame da OAB.

Parte dois – Rodrigo Lima fala sobre dinheiro, “Suécia analfabeta”, novo álbum do Dead Fish e planos para DVD

Hoje, além de vocalista do Dead Fish, ele aprendeu a arte de fazer cerveja e está se tornando um especialista no assunto [comparando-se a maioria nós, reles levantadores de copos].

Ele também falou de sua família, do selo Terceiro Mundo e a história da música Contra Todos, particularmente, a que mais diz sobre a minha vida caótica paulistana dos dias atuais.

Rodrigo Lima, 38: mestre cervejeiro, quase-advogado e vocalista do Dead Fish. Foto por Maikonn Batista
Rodrigo Lima, 38: mestre cervejeiro, quase-advogado e vocalista do Dead Fish. Foto por Maikonn Batista

Você é formado Direito. Tem OAB?
No dia do exame da ordem, tinha show em algum lugar. Entrei na van e fui embora. Até fui uma vez na prova, mas não era formado. Tivemos um problema com a OAB do Espirito Santo e eles cortaram nosso direito de fazer a prova. Ai decidi: não vou mais fazer essa porra!

Trabalhei com o sindicato durante dois anos e para um advogado penalista, mas na época da faculdade. Quando me formei, entreguei o diploma para minha mãe e falei “tô indo para a estrada, tchau”. Isso foi em junho de 1999.

Você entregar o diploma e falar para a sua mãe que não trabalharia com direito. Como foi esse choque?
Não foi um choque, minha mãe já esperava um pouco. Ela tinha esperança de que eu mudasse de ideia, mas não aconteceu. Ela é artista plástica, mexe com decoração e arquitetura, gosta de arte. Apesar de eu achar que o que não faço arte, é vida cotidiana.

Parte um – Dead Fish no mainstream: “foi o retorno de uma esperança”, diz Rodrigo Lima, sobre o álbum Zero e Um

Foi quando vocês vieram para São Paulo?
Não, isso rolou muito tempo antes. Eu vivi da Terceiro Mundo, abrimos um escritório, era muito legal. Quem sabe um dia eu relance ele, mas não sei se vou ter saco. O selo era só eu, depois o Murilo entrou com uma grana, o Nô e o Alyand davam uma mão. Mas quem fundou foi eu.

Agora você é um cara que faz cerveja em casa, né?
Pois é, eu aprendi. Tanto que não consigo mais tomar muita cerveja. Eu nem bebo muito, mas tenho amigos que são cultuadores. Como é que você sabe que eu faço cerveja em casa?

Graças ao Pimentel. Ele disse para vir fazer uma matéria contigo.
Eu ainda tenho que melhorar. Mas é melhor do que estas cervejas aqui. É pura, não tem arroz fermentado no meio, nem água ruim. Fiz uma red ale, uma lager [com fermentação a frio] e agora quero fazer uma cerveja preta.

Tomei uma Erdinger preta uns dias atrás.
Você precisa experimentar uma imperial stout. Você vai sentir a dor de existir. É muito foda. Essa é uma das coisas que eu gostaria de seguir na minha vida, ter um canto para fazer e vender cerveja artesanal.

Será que dá mais dinheiro que banda?
Cara, eu sou um idiota [risos], gosto de tudo o que não dá grana. Fabricar cerveja, escrever, ter uma banda de punk rock. Eu poderia ser um desses advogados bigodudos. Estaria gordo e rico!

Esse caos de São Paulo. Eu moro na Rua Augusta, minha janela dá para o minhocão e todos que moram comigo não suportam o barulho a madrugada toda. Até hoje, quando eu ouço Contra Todos, funciona como um gás para sair de casa e enfrentar tudo mais uma vez. É o sangue de São Paulo.
Esse disco foi feito ali na sua vizinhança. Eu morava no térreo. Um dia tinha um mendigo morto, estatelado na frente da minha casa. Minha mulher falou “não quero mais viver aqui”. Escrevi da janela da minha casa, depois que recolheram o mendigo. As pessoas pulavam por ele, porque estavam com pressa. Eu acho animal a música, tenho muito orgulho de ter escrito. Mas nos shows, não falo sobre isso. Falo sobre futebol, que é uma música sobre as torcidas. É todo mundo na arquibancada, são as pessoas que empurram o mundo. É engraçado, as pessoas perguntam por que eu falo de futebol, se é uma música de amor. E aí? É mais ou menos isso. É esse o sentimento de um cara que vive em São Paulo, parece que ele está lutando contra todos.

Cinquenta pilas (R$50) pra você gastar em coisas legais na Ideal Shop

Em mais uma troca de e-mails com meu amigo Felipe Gasnier, da Ideal Shop, sobre uma pauta com o Garage Fuzz que ainda vai aparecer aqui no Diário de Palco, ele ofereceu de presente para os leitores do blog um vale compras de R$50 na Ideal Shop.

Mas para participar, precisa mesmo ser leitor do blog [ou dar uma fingida]. É simples: é só dar um Curtir nas páginas do Diário de Palco e da Ideal Shop no Facebook e também colocar em seu perfil a reportagem que mais gostou do blog neste um mês de vida [completados hoje!].

Por último, é só entrar no link Promoções, novamente na nossa página do Face [veja na imagem abaixo] O resultado sai dia 5 de outubro.

O link da promoção é aquele botãozinho vermelho. Clique aqui para ir pra lá.
O link da promoção é este que está vermelho. Clique aqui para ir pra lá.

Rodrigo Lima fala sobre dinheiro, “Suécia analfabeta”, novo álbum do Dead Fish e planos para DVD

Ontem, durante à noite [que já é um horário ruim para a audiência na web], publiquei a primeira parte do papo que tive em julho com o Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish.

Pela primeira vez no Diário de Palco, tive o tipo de repercussão que desejo: ver pessoas que não só divulgando links, mas comentando e selecionando trechos do conteúdo. Isso significa que elas leram e encontraram algo de relevante no que foi publicado. A frase que mais vi por aí foi “quem caga muita regra, acaba comendo a própria bosta”. Torço para todos levem-a para si.

Neste segundo bloco, o assunto é o Dead Fish de hoje. Ele responde questões sobre grana, empregos, cena, disco novo e um possível DVD. Segunda-feira subo a terceira e última parte desta entrevista, sobre a vida pessoal do vocalista de hardcore que poderia ter sido um “desses advogados bigodudos”.

Rodrigo Lima, 38, durante show do Dead Fish no Fire HC Festival, em São Paulo - Foto por Maikonn Batista
Rodrigo Lima, 38, durante show do Dead Fish no Fire HC Festival, em São Paulo - Foto por Maikonn Batista

O Dead Fish te dá grana suficiente para você…
Sim, dá para pagar as contas. Mas preciso pensar em um monte de outras coisas. Já trabalhei em um restaurante vegetariano, escrevo algumas coisas para os meus amigos, corrijo alguns textos, mas o grosso das contas, vem do Dead Fish.

Quem você acha que ainda dá valor para a cena, se preocupa em vê-la acontecer, que tem um proposito?
Muitos dos velhos, que ainda tem selos antigos. O Mozine ainda é ativo em Vila Velha, os meninos da Verdurada fazem diferença, o Maurílio [do Switch Stance/Empire Record] e até o Fora do Eixo, apesar de eu ter restrições quanto a ideia e o projeto, na raiz a ideia é muito boa. Mas é uma coisa good intentions gone bad, boas intenções que se tornaram estranhas.

Qual é a história do “Ei, Dead Fish vai tomar no cu”? É tradicional nos shows, mas não sei como isso começou.
Isso é da época do Afasia. Eu tinha brigado com a banda inteira e não podia mandá-los diretamente para a casa do caralho. Saiu em um CD e virou um grito de guerra, sem querer. Os caras gostaram e quiseram colocar. É um “Hey Ho, Let’s Go” brasileiro.

Vocês estão pensando em fazer um novo disco?
Estamos na demo. Tem uma música nova, que se chama Tijolo. Estou meio apaixonado por ela. Fala da atual situação do Brasil. Da gente pensar que é sueco. Sueco analfabeto. Talvez a gente faça um DVD em algumas capitais.

Você toca algum instrumento ou só canta? Porque no começo do Dead Fish, você queria ser o baterista.
Ah, eu arranho. Eu ainda quero ser baterista. Acho que com 60 anos, eu consigo.

Dead Fish no mainstream: “foi o retorno de uma esperança”, diz Rodrigo Lima, sobre o álbum Zero e Um

A última das entrevistas feitas antes do Diário de Palco ir ao ar foi esta, com Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish. Tomamos uma cerveja em um boteco lotado de camisas de clubes de futebol do mundo todo, próximo da casa dele, na Pompéia, dia 13 de julho deste ano.

Conversamos sobre muitas coisas e como a entrevista toda ficou muito legal, decidi dividir em algumas partes, para ninguém ficar com preguiça de ler um bloco imenso de texto. A primeira delas é sobre o período que o Dead Fish bombou no mainstream, com o álbum Zero e Um, o primeiro lançado pela Deck Disc, em 2004.

Nos próximos dias, você também vai ler sobre Rodrigo estudante de direito, a família, o Dead Fish hoje, o mestre cervejeiro, a situação da cena hardcore e outras coisas mais. Uma das entrevistas mais legais que fiz até hoje.

O Rodrigo agora faz cerveja em casa, mas topou tomar uma Original comigo
O Rodrigo agora faz cerveja em casa, mas topou tomar uma Original comigo

O auge comercial de vocês passou. Como lidam com isso?
A gente nunca teve a ilusão de que sairia da cena. Nós tocamos hardcore politizado, chato para caralho. Pode ter gente que se decepcionou, mas enquanto estivemos no mainstream, sempre mantivemos a cabeça focada na nossa estrutura. E outra coisa: o mainstream é sempre temporário. Você usa e é usado e não tem validade eterna. O CPM 22 ficou bastante, a Pitty também. Mas é mais uma questão política.

Qual o melhor disco que você fez?
Zero e Um. A gente tinha uma energia boa. Foi o retorno de uma esperança. A gente ia acabar e no meio de 2003 surgiu esse convite da Deck e nos vimos em um puta estúdio, o Tambor. Gente que a gente queria estar junto, o Philipe e o Hospede. Você pode ver que a raiva do CD é uma raiva boa, para cima. Foi um passo à frente, tecnicamente e de ideias.

A música Zero e Um é cada vez mais atual, né?
Ela não vai ficar datada tão cedo. Eu sou um cara super digital. Quer dizer, não perco um tempo raro da minha vida na frente do computador batendo papo. Prefiro sentir o skate bater na canela, sentir essa dor de verdade. Mas eu mesmo já me vi passando tempo demais na frente dele.

O que você faz na internet?
Fico lendo. De dois anos para cá, passei a ser um baixador de música. Fico no Facebook vendo coisas que os amigos postam. Entro no Skype, falo com meus amigos na Argentina e na Europa.

Agora quero começar a produzir coisas no computador. O Philipe grava algo, samplea a bateria, faz uma guitarra e mostra para nós tudo estruturado, quero fazer isso também. E estou editando os vídeos da banda.

Vocês estão com 20 anos de estrada, assim como Garage Fuzz. Podia rolar uma turnê conjunta, não? Estilo Paralamas do Sucessos e Titãs [que fizeram juntos uma turnê dos 25 anos de cada banda, em 2007].
Estamos tentando fazer um show com eles [as bandas se apresentaram juntas no Fire HC Festival, em setembro]. Essas bandas tem quantos anos? Eu fui em um show do Cabeça Dinossauro em Vitória, no Estádio do Álvares Cabral. Animal, A-NI-MAL. Até fiquei com medo do Branco Mello!

Depois ele passaram a tocar Epitáfio e músicas mais bonitas. Você acha que isso é um reflexo porque os caras envelheceram?
É, eles envelhecem e têm que fazer coisas diferentes. Também tem essa de querer se manter no mercado. Talvez se eu fosse mais jovem, julgasse mais. Hoje não tanto. Cada um, cada um.

Não é algo “condenável”?
[pausa] Quem sou eu para condenar alguém? Quantos erros e acertos que já tive e tenho que arcar com as consequencias? Quem caga muita regra, acaba comendo a própria bosta.

Ao rei, as glórias: na noite dos veteranos, Dead Fish confirma a posse do trono

O primeiro convidado a escrever no Diário de Palco é o Augusto Conter, meu colega de profissão e também velho da cena. Ele se mudou de Foz do Iguaçu para para São Paulo há algumas semanas e tomara que seja um colaborador frequente. Vocês vão perceber na reportagem dele sobre o Fire HC Festival que o garoto sabe das coisas.

Muito gás no palco no festival dos "velhinhos"
Dead Fish: músicos exibem gás invejável e digno de banda recém-formada

Neste domingo (18) na Zona Leste de São Paulo, rolou o Fire Harcore Festival. O festival que reuniu a nata dos veteranos do harcore nacional: Dead Fish, Garage Fuzz, Dance Of Days e um convidado internacional Boom Boom Kid (ARG). Também estiveram presentes alguns nacionais não tão veteranos assim, mas já com um chão de estrada, como Rancore, O Inimigo, Autônomos, No More Lies e, o grupo “novato de veteranos”, Medellin, sob o comando de Badaui, do CPM22.

Mas, foram eles, os capixabas do Dead Fish, que roubaram a cena. Não houve resposta de público mais intensa do que a que eles tiveram, mostrando que colocá-los como headliners em meio há tantos nomes foi uma sábia opção. Nem a câmera colocada na cabeça do Rodrigo para filmar o show conseguiu impedir que o vocalista entrasse agitando loucamente, como de praxe. O set teve mais músicas do Zero e Um [álbum favorito do vocalista] do que qualquer outro. O público não se deixou abater por ser o último show da noite – pelo contrário, agitou insanamente. Realmente, um show de lavar a alma.

Headliners
Mesmo trazendo bandas da velha guarda o público era composto em sua maioria por jovens com menos de vinte anos. O festival começou no início da tarde, mas, às 17h foi que subiu ao palco o primeiro grande nome: Rancore. Conforme prometido por eles próprios antes do festival, a banda optou por um set porrada e colocou muito mais peso nas músicas, entrando em sintonia com o espírito da festa. Muita presença de palco e destaque para o mosh do vocalista no fim, que levou o público ao delírio.

Depois, o Dance Of Days deu continuidade ao peso com um set na quinta marcha, com músicas como Mova, Correção e Insônia. À medida que a apresentação ia se direcionando ao fim, as músicas mais pesadas ficavam de lado para dar passagem aos hits, culminando com o público cantando em uníssono a sempre presente Me Leve às Estrelas. Nessa apresentação Nenê Altro adotou um tom bastante paternalista ao ver a idade do público presente e aproveitou pra falar bastante sobre os anos de harcore e dar conselhos: “Montem uma banda”, “Encham a cabeça de cultura”. E, aproveitando que a casa ainda não estava tão cheia assim, soltou: “Não interessa quantas pessoas estejam presente no nosso show. Tem quantas aqui, mil? Se tocarmos o coração de uma, valerá a pena”.

Com o Garage Fuzz foi menos papo e mais música. Uma emendada na outra, aliás. Depois do Dead Fish, foi quem teve a melhor resposta do público. Um show perfeito e irretocável!

Já o Boom Boom Kid instaurou um ar generalizado de olhares curiosos: apesar de tocar com frequencia no Brasil, nem todos os presentes eram fãs da banda – metade do público mais observou do que interagiu. Porém, a performance do vocal Nekro fez todos se animarem, elevando o crowd surfing do Rancore para outro nível, adicionando a ele uma prancha de surf, como já é costume nos shows deles! Sensacional!

Quem já esperava o Dead Fish teve que se segurar. Na sequencia houve o show da Medelin, banda hardcore do Badaui (CPM 22), Hóspede (ex-Dead Fish) e outros veteranos da cena. O público agitou, mas metade permaneceu apático, observando e conhecendo o som da banda ou tomando fôlego pelos cantos aguardando o Dead Fish.

Análise geral
Em meio a tantos nomes de peso, o festival tinha o jogo ganho. Bastava apenas a competência da organização para conduzir a festa. E pode-se dizer que tiveram: os shows começaram pontuais e o som estava bom – com exceção no Dead Fish, que com a mudança de amplificadores ficou muito alto, deu uma estourada e ficou meio embaralhado.

Mas, para o público em geral, isso é mero detalhe quando todos vão para casa já cansados, com um sorriso no rosto e chiado no ouvido. Na saída, mesmo há distância, era possível escutar os últimos corinhos “Hey, Dead Fish, vai tomar no…”.

Banda VInDA: vocalista apresenta o lado B de Bell Ruschel, baterista da Fresno

Niper, Vini, Bell (ao fundo) e Hugo. Foto por @nickkkfotos
Niper, Vini, Bell (ao fundo) e Hugo. Foto por @nickkkfotos

Conheci o Vinicius Dávilla, vocalista da VInDA, em março do ano passado, nos bastidores do segundo show do Anberlin em São Paulo. Começamos a conversar sobre Foo Fighters e uns dias depois, ele me mandou via MSN duas músicas (na época) novas, que eu nem sabia que eles haviam lançado em uma coletânea.

Nesse meio tempo, acabamos ficando amigos virtuais e acompanhei de longe os passos da sua banda nova. Quando o Vini me mandou o clipe de Por Nós Dois, segunda música lançada por eles, me dei conta de que seu baterista era Bell Ruschel, que também comanda o instrumento na Fresno.

Mas ao contrário da banda major, na qual é coadjuvante, na VInDA ele assume um papel mais importante. “Tenho uma adimiração profunda pelo Bell,é o meu melhor amigo, dividimos apartamento por quase dois anos, é um grande profissional e pessoa. Graças a o Bell eu consegui os caras pra tocar na banda”, explica Vini.

Naturalmente, a presença do músico dá um belo salto na construção da carreira da VInDA: o primeiro single deles, Amargo Demais, foi lançado pela rádio transamérica; O segundo clipe, Por Nós Dois, foi apresentado ao mundo pela PlayTV.

Além de Vini, pai da banda, Bell trouxe os outros dois integrantes que completam o time: o guitarrista Hugo Nute e Niper Boaventura, que também é o frontman da Pulldown.

O pique de Bell em tocar com uma banda nova também é grande, afinal de contas, ele vive de um grupo que tem poder nacional. “O que mais importa é a experiência e humildade que ele passa para nós. Não é fácil tocar pra 30 mil, com toda estrutura e na semana seguinte carregar, montar e desmontar uma bateria e fazer um show para 100 pessoas”, explica mais uma vez Vini, dando a importância do baterista para o grupo.

Soft rock
Em questão de gênero, a VInDA pode ser classificada como pop/rock, embora caibam muitas porcarias dentro deste rótulo. Para mim, é um rock gostoso de ouvir, com cordas carregadas, mas soft – ao vivo, creio eu, deve ter mais pegada.

Me parece que a influência radiofônica dos amigos da Fresno se faz presente – como um ponto positivo. Vini também classifica o Foo Fighters como principal referência, além de outros nomes do pop, como Oasis, Silverchair, U2, Beatles, Titãs e Paralamas do Sucesso.

Todo este texto bonito acima é para apresentar a terceira música deles, Do Nosso Jeito, que está sendo lançada neste domingo (20) e pode ser ouvida no novo site da banda. Minha música preferida deles é Por Nós Dois [que tem clipe no meio do post], mas você pode ouvir as duas e discordar de mim. Comente aí embaixo e diga o que achou!